domingo, 23 de janeiro de 2011

O Conte Grande


 (O Conte Grande no porto de Santos em 1941 em foto do arquivo de Rossini)


OS ITALIANOS DO HOTEL QUITANDINHA:

Oazinguito Ferreira da Silveira Filho, professor e pesquisador de História graduado pela UCP e pós-graduado pela UCAM em História do Século XX

Depoimentos do Sr. Orlando Klôh, ex-garçon do Hotel Quitandinha, e observamos que a riqueza deste depoimento não residia somente no que fora exposto, mas principalmente no que vivenciara profissionalmente. "Seu" Orlando, na mesma época em seus depoimentos, assinalara o fato de que Rola iniciara seus projetos adquirindo o histórico e famoso, "Tênis Clube de Petrópolis" (atual Petropolitano F.C) em 1941 e que o transformara em cassino, para tanto obras na fachada do clube (portal) foram desenvolvidas com o objetivo de prover uma entrada de maior requinte já que a maior parte do clube apresentava uma paisagem "campestre". O próprio Orlando trabalhou nas obras sendo depois convidado para trabalhar no interior do cassino. Quando terminou as obras do Hotel Cassino Quitandinha, os funcionários do Tênis Clube foram transferidos, mas eram poucos para o movimento e espaço considerado, o próprio Orlando passou a auxiliar no som e iluminação da Boite, onde apresentavam-se os famosos shows nacionais e internacionais, assim como bailes, passando posteriormente para o corpo de garçons. Mas Seu Orlando conta que Rolla viajou para Santos com o objetivo de contratar os tripulantes do transatlântico Conte Grande para solucionar com um grande naipe de profissionais os problemas do Cassino. Dezenas destes funcionários super-capacitados no período entre - guerras pelas escolas mais eficientes de hotelaria da Europa transferiram-se para Petrópolis onde muitos e suas famílias até hoje estão estabelecidos e incorporados ao cotidiano social do Petropolitano. Assim é que devemos destacar um pouco da história desta embarcação cujo destino relacionou-se com o de nossa sociedade.


 (foto da "brigada da boite" e de seus italianos, arquivo de Orlando Klôh)

A história do Conte Grande deve ser ressaltada do que foi escrito por José Carlos Rossini, jornalista da Tribuna de Santos em 1992. O Conte Grande, foi construído na Itália em 1928, e ficou retido em Santos em 1941, assim como o transatlântico alemão Windhunk. Quando Hitler invadiu a Polônia em 1939, o comandante do Windhuck, que era o mais moderno transatlântico germânico na época, resolveu interromper o cruzeiro que a embarcação fazia pelos mares e litorais da África, passando a refugiar-se na América do Sul, fugindo principalmente dos navios de guerra e do racionamento de combustível que impedia as embarcações de cruzeiro de viajarem tranqüilas. Já o Conte Grande, com exceção de um par de viagens, em 1935, entre Trieste e Nova Iorque, permaneceu na rota sul-americana, não interrompendo seus serviços.

Na época, o Conte Grande possuía 486 eram tripulantes, enquanto encontrava-se atracado no porto de Santos, onde, a Italmar empresa proprietária, providenciou o encaminhamento dos passageiros que se viram atropelados pela guerra. Segundo Rossini, o adido naval italiano no Rio de Janeiro na época, Torriani, passou a ser o responsável pelo grande transatlântico. O futuro era incerto para a grande maioria dos tripulantes do Conte Grande assim que logo desceram em terra firme, alguns foram acomodados em pensões e hotéis de Santos e São Vicente, enquanto um menor número foi levado para São Paulo e interior do Estado. Enquanto isto, a presença do Conte Grande em Santos, entre junho de 1940 e abril de 1942, marcou o cotidiano da cidade. Seus tripulantes desembarcados, sobretudo dos homens de copa e cozinha (garçons, cozinheiros, copeiros, camareiros) que foram albergados, bem e mal, por aqui e por ali, foram encontrando trabalho em bares e restaurantes da cidade, enquanto outros vivendo no ócio e sendo sustentados por uma magra contribuição financeira do Consulado Italiano. Rossini continua sua descrição: no Hotel Parque Balneário, no Gonzaga, foram tocar os músicos da orquestra de bordo, e o cozinheiro-chefe do Conte Grande, contratado pelo então proprietário, o senhor Fracarolli, foi enriquecer o cardápio à l'italiana do prestigioso hotel. Outros membros da tripulação de serviço encontraram emprego em hotéis e restaurantes de Santos, São Paulo e até do Rio de Janeiro. Entre esses, um cozinheiro-auxiliar e dois garçons foram parar no Restaurante Bologna da Ponte Pênsil em São Vicente, e vários garçons, barmen e cozinheiros foram para o Hotel Quitandinha, do Rio de Janeiro.

 (O restaurante do Conte-Grande e seus tripulantes em serviço, arquivo de Rossini)


Quanto ao Windhuck, Em 1942, quando o Brasil declarou guerra contra a Alemanha, toda a tripulação foi presa e conduzida para campos de concentração no interior de São Paulo e lá ficaram presos até o fim da guerra em 1945.




O MUNICÍPIO DO PR COM O NOME QUITANDINHA



A importância do Quitandinha historicamente não se prendeu somente aos eventos nacionais e internacionais de porte na história como a Conferência do Rio de Janeiro. Nem somente aos eventos sociais como bailes, desfiles de misses, carnavais e outros que já descrevemos neste blog. Quitandinha também tornou-se nome de município no Paraná. Leia histórico abaixo:

O MUNICÍPIO E O SEU NOME

Foi fundada a paróquia do Senhor Bom Jesus, de Areia Branca, cujo território abrangia partes de quatro municípios: distrito de Areia Branca, no município de Contenda; distrito de Pangaré, no município de Rio Negro; localidade de São João Caíva, no município da Lapa; localidade de Caí de Baixo, no município de São José dos Pinhais. Em janeiro de 1961 assumiu a paróquia, como vigário titular, o padre Miguel José Mickosz, o qual, considerando a dificuldade para desenvolver um trabalho de catequese e evangelização dos paroquianos num território assim dividido, tratou logo de propor a criação de um município que abrangesse todo o território da paróquia. Padre Miguel recorreu aos préstimos de um amigo, que era na época deputado estadual, Dr. Antonio Ferreira Rüppel, o qual apresentou na Assembléia legislativa do estado, o Projeto de Lei n° 37/61. Essa lei foi aprovada pela Assembléia e encaminhada ao então governador Ney Braga para sanção. Ney Braga, que tinha conhecimento de um grupo de correligionários seus, que eram contra a criação do novo município, devolveu o projeto de lei para a Assembléia, tendo o deputado Vidal Vagnone, Presidente do Legislativo, promulgado a lei em 14 de junho de 1961.

Na década de 50, o Sr. Reinaldo Paolini, em viagem ao Rio de Janeiro, hospedou-se com sua esposa no Hotel Quitandinha, em Petrópolis. Nessa época, estava sendo construída a rodovia BR 116, e o Sr. Reinaldo Paolini construiu à beira dessa estrada, um bar e churrascaria ao qual deu o nome de Quitandinha. Por ocasião do ato de criação do município, almoçavam na churrascaria o padre, o deputado e outros políticos, quando o Sr. Reinaldo Paolini propôs que desse ao novo município o nome de sua churrascaria, o que foi aprovado, surgindo daí o nome Quitandinha.

(in, http://www.quitandinha.pr.gov.br/history_municipio.asp)



TRANSPORTE URBANO EM PETRÓPOLIS NOS ANOS 50/60




Linha 3 - Quitandinha - Viação Imperial - Início: Rua Paulo Barbosa - final alto do Quitandinha - passagem direta: Cr$ 4,00 - 39 viagens diárias de ida e volta.




INTER-BAIRROS: UMA REVOLUÇÃO PETROPOLITANA NOS TRANSPORTES



O decreto-municipal de ligação Inter Bairros de Transportes, significou uma verdadeira revolução nos transportes Petropolitanos. Os empresários de cada região da cidade comprometiam-se a fazer um número relativo de viagens entre os bairros Petropolitanos procurando aliviar o ônus existente entre os trabalhadores que precisavam pagar várias passagens para chegar ao destino casa-trabalho.

O mais efetivo foi o da ligação Quitandinha-loteamento Samambaia que passava pelo Alto da Serra, Cascatinha entre outros. Servido tanto pelas Hortênsias como pela Petro-Ita. O sistema foi substituído pelas estações de transbordo.

Construção do Hotel Quitandinha I


(foto tirada de um monte próximo onde havia uma pedreira e iniciou-se o processo de ocupação imobiliária das proximidades do Hotel. A mesma foto apresenta ainda o hotel em suas etapas finais de construção)

(também do monte próximo onde pode-se observar a parte traseira)

(outra etapa da construção)

(A construção em seus primeiros movimentos, o "esqueleto")



(Trabalhadores em movimento nestas obras)

 (Uma foto aérea do Hotel Cassino Quitandinha em 1944, uma raridade de época) 


(foto da etapa final de construção do Hotel Cassino Quitandinha, os salões e diversos halls ainda em construção reproduzida nos jornais Petropolitanos em 1944 e pertencente á coleção de J.K.Fróes Arquivada no Museu Imperial)

A Casa Francesa, que era nome de fantasia de uma tradicional empresa cujo registro oficial levava a razão com o nome de seus fundadores, Isnard & Moraes Ltda., e cuja sede estava presente na Rua da Consolação, no. 50. A Francesa desenvolveu seus serviços pelos principais prédios do Rio de Janeiro no período, que eram principalmente os de decorações em gesso e cimento para interiores e fachadas de prédios, além de adequação de ladrilhos hidráulicos e revestimentos em granilite e fulgêt, ambos de última geração para a época.

A partir dos anos 40, as informações que se apresentam é a de que a razão social de Casa Francesa passa a ser Pedralit Revestimentos Ltda. Já em 1978, nova alteração na razão social conduz a Elepar Material para Construção Ltda e Graniform Ltda, que deram continuidade a tradicional marca Casa Francesa.

Quanto a OTIS é uma tradicional firma americana com 150 anos de existência, na fabricação de elevadores, escadas rolantes e demais equipamentos, e com um século em funcionamento no Brasil. Em sua história, observamos que a OTIS atuou no Brasil primeiramente no Palácio Laranjeiras, atualmente a residência oficial do governador do Rio de Janeiro, foi á primeira edificação brasileira a receber um elevador elétrico da Otis no pais isto no ano de 1906. O maquinário funciona até os dias de hoje e, com a manutenção a cargo da própria Otis, conserva suas características originais. Inicialmente, a empresa atuou no País com a importação de componentes, abrindo, em 1926, seu primeiro escritório de vendas no Rio de Janeiro. A primeira fábrica, também no Rio, seria construída em 1934. Desde 1991, a Otis encontra-se instalada em São Bernardo do Campo, SP.


O projeto do Hotel Cassino Quitandinha foi de Luiz Fossati. Do escritório no Rio, surgiu muito antes outro projeto do Arquiteto Luiz Fossati em 1939 que atraiu as atenções na época, tido por Rouen, pesquisador carioca, como um dos mais belos prédios Art-Déco que tivemos, o Cassino Hotel Balneário Icarahy. " Suas formas nitidamente de época lembram os traços do Cinema Olinda, do Cine Ipanema, do teatro e da rodoviária de Goiânia, e alguns outros prédios Art-Déco que foram demolidos no país." Outra realização do arquiteto Luiz Fossati nesta região nos anos 1936-37 foi á construção do famoso Trampolim da Praia de Icaraí,sob encomenda do Clube de Regatas Icaraí, em concreto armado, localizado em frente à Rua Lopes Trovão. O trampolim foi ao final dos anos 60 dinamitado por oferecer imenso perigo e risco aos banhistas. 

(in, Rouen in http://fotolog.terra.com.br/bfg1:445)



(neste detalhe da foto observamos a finalização das obras da parte térrea do Hotel, de sua recepção e salões).


(neste outro detalhe observamos a publicidade das empresas na fachada do Hotel)

(outro detalhe da finalização das obras)

(neste outro detalhe observamos em detalhe a publicidade do construtor, do projetista e da OTIS)

(escada que sobe para a torre que integra o complexo do prédio)
(o segmento traseiro do prédio em acabamento final, assim como a torre)

Construção do Hotel Quitandinha II






Um detalhe que para muitos pesquisadores seria improcedente de haver existido. Mas o mesmo foi real, o de um projeto de autoria de Oscar Niemeyer, produzido a pedido de Rolla, para um prédio-condomínio, que comportaria 5.700 apartamentos (em 1950). O famoso "Condomínio Mauá", que seria construído ladeando o Quitandinha Palace.

O mesmo projeto chegou a ter unidades vendidas por seu construtor, Joaquim Rolla, porém o empreendimento não se realizou em Petrópolis, e foi construído em menor escala no formato de Condomínio, o Edifício JK, em Belo Horizonte, também um projeto de Niemeyer.

O Mega projeto não seria adequado às condições ambientais da região, e na época em que foi projetado, o Quitandinha perdera sua magnitude, sendo então o condomínio mais um dos empreendimentos imobiliários de especulação na região serrana na era de seu pseudo-modernismo.

  (observe atentamente a desproporcionalidade deste mega-projeto comparado com o Quitandinha que é ladeado pelo mesmo)




Para as obras artesanais, inúmeros artistas foram contratados no exterior, até mesmo asiáticos.
No seu auge, o Quitandinha chegou a empregar 1.500 pessoas e abrigou em seus salões os figurões da República, artistas de renome nacional e internacional e a nata da elite nacional. Por sua "boite"  se apresentaram artistas como Grande Otelo, Oscarito, Emilinha Borba, Marlene e a vedete Virgínia Lane. Passaram também por seus salões estrelas do porte de Errol Flynn, Orson Welles, Lana  Turner e Henry Fonda. E políticos como Getúlio Vargas e Evita Perón.



Nas suas dependências ocorreu a assinatura da declaração de guerra dos países americanos ao eixo (história), durante a Segunda Guerra Mundial, a Conferência Interamericana de 1947. Realizou-se também, em 1957, a 16ª Conferência Mundial de Bandeirantes, que contou com representantes de 23 países Associados à WAGGGS (Word Association of Girl Guides and Girl Scouts), a assinatura do Tratado do Rio de Janeiro, entre outros inúmeros eventos nacionais e internacionais.

Nos anos de 1954 à 1957 ocorreram os famosos concursos de Miss Brasil com a concorrência de inúmeros empresários relacionados à esta festa que tornava-se importante pelo evento internacional que se realizava logo a seguir, um charme para a época.

Joaquim Rolla, o empresário que construiu o Quitandinha era muito bem relacionado no governo e, com isso conseguiu proteger-se da proibição do jogo. Amigo de Amaral Peixoto, o interventor do Rio de Janeiro que era genro do Presidente Getúlio Vargas, Joaquim Rolla negociou com o governo um contrato que lhe garantia uma indenização de 120 mil contos de réis, na eventualidade do jogo ser proibido em território nacional, o que, de fato, viria a acontecer dois anos depois da noite de 12 de fevereiro de 1944 (inauguração). Mais precisamente por um decreto assinado por Dutra em 30 de maio de 1946.

Não conseguindo sobreviver só como hotel de luxo, os apartamentos foram vendidos a partir de 1963. O conjunto em janeiro de 1989, foi totalmente restaurado, aguardando-se a abertura dos jogos no Brasil.

Quando o Cassino foi inaugurado ocorreu um banquete para duas mil pessoas, no salão Marcondes. Conversíveis, “rabos de peixe”, limusines chegavam com grande movimento. Os ônibus especiais da UTIL e da ÚNICA faziam fila em sua entrada, além de “carros de praça ou aluguel”.
Além do banquete havia ainda o show Vogue 44, com Grande Otelo, Yma Sumac, Alvarenga e Ranchinho. Duas orquestras, de Carlos Machado e do maestro Gaó, tocariam durante o jantar e o baile. Devido à grande quantidade de convidados, o jantar começou a ser servido às 23h30 e o show às 2h15 da manhã, quando pouca gente podia assisti-lo não só por causa do atraso, mas também pela grande quantidade de bebida ingerida.

O Sr. Orlando Klôh tem razão, bons tempos! (Garson do Hotel)

Mas não devemos nos esquecer que a construção do Hotel acelerou também a descaracterização do sitio histórico Petropolitano invadido pela construção de inúmeros “espigões” em nome do “progresso e do modernismo”. Uma “falsa alavanca” desenvolvimentista em uma cidade histórica.



Já a construção ficara a cargo de Alcebíades Monteiro Júnior, ou Monteiro Filho (foto), que nasceu em Lisboa (Portugal) 1909 e chegou ao Brasil com 11 anos de idade, em 1920.

Monteiro fora companheiro de estudo no Liceu de Artes e Ofícios de nomes como Cândido Portinari, Manoel Faria, Rui Campelo (pintores), Calmon Barreto (gravador), e Antonio Nássara (arquiteto). E além de construtor fora principalmente desenhista e chargista-caricaturista de famosas revistas cariocas como Para Todos, O Malho, Tico-Tico. Organizara desfiles para o Clube dos Fenianos, sociedade carnavalesca carioca de grandes carros em 32. E após a construção do Quitandinha, veio morar em Petrópolis e ficou responsável pela construção do edifício Minas Gerais, sede do Banco do Comércio e Indústria de Minas Gerais; do edifício Imperador e  na década de 1950 encerrou suas atividade em cenários de filmes da Cinédia.


 (cúpula em construção)

Quanto ao Quitandinha, são cinqüenta mil metros quadrados e seis andares; salões com dez metros de altura; quatrocentos e quarenta apartamentos; treze grandes salões. Um destes salões, o Mauá, reservado ao cassino, impressiona como obra de engenharia por possuir uma cúpula com trinta metros de altura e cinqüenta diâmetro, sendo a segunda maior cúpula do mundo, comparada a redoma da Catedral de São Pedro em Roma. Tamanha dimensão impressiona ainda mais quando nos fazemos presentes neste salão, mais precisamente em um ponto definido onde sua voz pode ecoar por até quatorze vezes pelo salão. Bem à frente do palácio estendem-se um lago com 18 mil metros quadrados.

(obras de construção do lago)